Autor: Ronaldo Nunes
•1/22/2012 10:52:00 PM

                Todo fim de tarde lá estava ele, aquele rapaz que todos admiravam pelo seu talento inegável. Era prazeroso encontrá-lo nas ruas do bairro. Todos diziam: Morte, morte, manda uma palhinha! Sim, o talentosíssimo homem tinha alcunha de Morte. Nome pesado que contraditoriamente dava vida aos sonhos de jovens garotos de periferia que se espelhavam nele. Todos tentavam imitá-lo, ele era o amigo ideal, por todo canto da cidade alguém o reconhecia, Morte era carismático, comunicativo, acima de tudo criativo.
                Talvez você esteja ai se perguntando: Mas onde é que todo fim de tarde ele estava? Qual era o talento desse tal Morte? Perdoe-me meus caros, é que me lembro desse velho amigo com uma enorme alegria, e por isso prolonguei-me nos predicados deste camarada. Pois bem... Toda tarde nos reuníamos em um campinho de futebol do morro, que logo ficava tomado por crianças, jovens, homens adultos, todos em busca do prazer comum. O futebol!! Só que a religiosa “pelada” de fim de tarde era algumas vezes interrompida por causa do Morte, preste atenção! Do Morte, não por causa da Morte. Morte na beira do campinho, e  logo gritavam os gurizinhos: Morte, Morte, manda uma palhinha! Algumas vezes ele até hesitava, mas na maioria das vezes ele nos contemplava com o seu talento... Dançarino nato! Uma fera no break! Seus pés deslizavam naquele chão batido, parado só os olhos dos “pivetes” que ficavam boquiabertos com tais movimentos. Morte, dançarino pra Nelson Triunfo nenhum botar defeito.
                Os dias se passaram e ficou a amizade. Morte era exemplo, infelizmente não por muito tempo. Assim que passei a conviver diariamente com ele, pude ver que ser o Morte não era tão bom quanto parecia. Morte tinha uma enorme vontade de montar um grupo de dança de rua, mas os recursos para montar o grupo não eram lá dos melhores. Faltava espaço para ensaiar, faltava uniforme para o grupo, faltava até um simples aparelho de som... Morte por uma série de fatores se envolveu demais com algumas coisas erradas. Seus sonhos se perderam em meio a multidão que se encontrava sem oportunidade. Conheceu as drogas, ficou irreconhecível perante os amigos. Já não mais usava droga, era usado por ela. Já não mais ensaiava, não reunia os seus “discípulos”. Meu Deus, o Morte, morreu... Zumbi, frequentava as madrugadas maquinando uma forma de conseguir sustentar seu vício. As drogas o consumiam tanto, que nem mais queria dançar, seus pés que antes deslizavam agora passaram a se arrastar. Numa dessas madrugadas viu na casa de uma senhora que dormia com a janela aberta, um som daqueles com cd player, pensou: Ali está a minha pedra mágica! E foi... Pulou a janela, surrupiou o cd player sem que a Senhora acordasse, só faltava sair da casa daquela pobre velhinha. Morte não podia dançar. Pulou a janela, caiu no terreno, quando ia saindo de fininho, pra seu azar, lá estava a policia fazendo o patrulhamento do bairro, justamente no momento em que ele se evadia da cena do crime. Pois é, dessa vez contra sua vontade, Morte dançou.





Ronaldo Nunes             
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3 comentários:

On 23 de janeiro de 2012 11:39 , André Luis de Vasconcelos disse...

BELA TEXTO MEU AMIGO SATISFAÇÃO SEMPRE...

 
On 23 de janeiro de 2012 13:14 , Rosana Rolim de Moura disse...

Querido poeta,como sempre,a riqueza de detalhes,nos trasporta para dentro da cena,lado à lado com seus personagens...você cada dia melhor...beijo

 
On 27 de janeiro de 2012 12:19 , Angelina Miranda disse...

Forte, frio, quente... cronista! Gostei de verdade!